segunda-feira, 30 de janeiro de 2012



T E E M P O

o tempo urge
retumba age

ave espedaçada
no horizonte

ser incediado
no poente

sábado, 21 de janeiro de 2012

MEMÓRIAS SECAS DE UM AQUALOUCO E OUTROS POEMAS: A POÉTICA DE JEAN NARCISO BISPO MOURA

A poética de Jean Narciso adquire consistência maior quanto mais é abstraída de uma relação com a realidade. A imaginação, cindida da vida, é recuperada para englobar a existência no plano da representatividade. Destarte, não mais estamos diante da crítica social, do registro documental ou da literatura que busca antecipar-se aos fatos. Em “Memórias secas de um aqualouco e outros poemas” o poeta insere o indivíduo e a idiossincrasia na execução de um projeto interpessoal, e renova a universalidade do ser como o mais primordial dos temas e dos mitos.

Quem é o aqualouco de posse desta identidade senão o homem à espera de um reflexo, de uma referência com a qual possa seguir sem o vazio e a lacuna do esquecimento? O aqualouco tenta inaugurar um futuro sem esquecer de si, e investe nesta empreitada sua essência. Mergulhar, pular, saltar, lançar-se: toda a ação futura depende da origem na ação pretérita. A mensagem possível: não há surgir para a eternidade fora da linha do tempo. E consagrados no tempo jazem os brios do ego a orbitar em torno de ego.

O esforço de entendimento e de compreensão passa a ser objeto de questionamento; aqui, qualquer método interpretativo é ilusório; qualquer corrente de interpretação se anacroniza: o aqualouco vive em um mundo obscuro e sem méritos. E no hermetismo do enredo não nos é dado desvelar todos os desígnios.

A perda se adensa na extensão do poema. A liquidez das etapas pode ser sinonímia de todos os esgotamentos possíveis. O aqualouco, ser da anomia, guarda em si a totalidade dos percursos e destinos. A trajetória humana, confundida com a “dramaturgia do pulo”, está aberta ao veredicto das mais diversas (ou disparatadas) subjetividades.