sexta-feira, 29 de julho de 2011


1984

Mortos os meus
interlocutores (desossados

pelos ossos do ofício), comecei
a vê-los, revê-los: o meu
compadre Aparício,
familiares e filhos

na tela deveras plasma,
deveras sangue, suplício
na tela: tela de tela,
na teletela: utensílio.


segunda-feira, 18 de julho de 2011


FLOR DO ÍNVIO ARBÍTRIO


Meu poema é régia
dor de cotovelo; flatulência, 

feto; impossível, cível.

Meu
poema absorto
em assumir-se parto
digno de aborto (postula-se
póstumo, o puto). Meu 


poema, apenas: 
trivial e frívolo, 
moral que ignoro, 

flor do ínvio 
arbítrio.

terça-feira, 5 de julho de 2011


A ALAGADA MESA


De vidro a alagada mesa,
infâme Veneza falsa,
cristal que o vidro não cessa
de ser: cristal e incerteza,

beleza à francesa, valsa
que o vaso chinês e o persa
tapete jamais cerceiam; de
vidro as marés, as cheias,


futuros cacos, relíquia,
aquosa deliquescência.

sábado, 2 de julho de 2011


DO AMOR: O VITRAL E O VULTO

Amor, mato estéril, remoto
o amor, sem nexo, inútil,
seus arquétipos militares
sobrevoam sexos sujos,
garimpam o gozo em caatingas
como é propício ao amor cátulo:

amor de tolo, século vinte.

(não ria, meu bem, nem chore do
amor frouxo em seu deboche; não

zombe meu bem, nem sofra o amor
maior: repartido em óbices)

Amor varonil tocando
seu corpo erótico: porta
lacrada em mil calafrios;
maníaco, repressivo,
como um filho o amor “deprê”
entre mares, marcapassos,
entre a podridão dos frutos
o amor: conflitos, fritas,
ou catira em lua cheia.

Entre a podridão dos frutos
o amor é o símbolo fálico
entre cachos, em parreiras
chupadas por bocas críticas

(o amor falido vira emblema)
proporcionais às velas e asceses
do amor simplório, simples, chulo
(o amor se descobre mudo
alagado em si: esperma),
rubicundo o amor ou ápice

se estereótipo em riste.

O amor pichou-me o muro
e imprimiu-me à testa: "nulo"

e imprimiu também: "quem sabe?"
conquanto os dentes de sabre
sejam mágicos, meus, maiores
que dor de corno ou o texto
que não decorei de todo.
Daqui estou vendo tudo
aquilo que o amor expele: fluído
de freio, refluxo,
a sede
de ser parido

e amado como os marujos
(a
sede que explode em jugo).

Amor verossímil, rouco
em meio ao eco confuso
como os ecos: sempre escusos
mas daqui neste ouço-não-escuto
o amor, par de olhares xucros

vê o meio de suas pernas
enredado em etiquetas ou

talvez em amor (em asneiras

propaladas pelos cultos

espiões de sua maneira
de abrir, fechar janelas e
eufemismos pra vereda).