sexta-feira, 31 de dezembro de 2010


A ROUPA DO CORPO


Aniversário de morte
no corpo que reverbera
em decibéis que ignoro
(reverberação, suponho).

Um corpo acústico: sonho
de silencioso espantalho,
um corpo que a priori
é seu espartilho e manto.

A roupa a ajustar-se ao corpo
durante a eternidade
de um velório quando planta
emudecida no horto.

Um corpo acústico: ouço
percutirem suas melenas
como se possível fosse
num cadáver que faz anos.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010


SUDORESE


A

Cordão de sudorese

que orna o pescoço;
transpiração frutifica,
brota, enforca;

suor que se vende,
cobra, dobra a esquina,
divide-me tronco e

membros e cabeça

(o preço que desembolso
em estado líquido).


B

Da sudorese o incolor

do meu percurso: a cédula
melecada,
a cifra aquosa

e o troco (que é sudorese
em verso e prosa) catimba,
ginga, ironiza, faz firula.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010


DOM MANUEL EDMILSON DA CRUZ

Se a onda pega (démodé
vaga) de recusarem comendas,
rarefazerem-se ofertas
tão generosas

de senadores tão férteis
(homens tão probos)
ao concederem a comenda
Dom Hélder Câmara...

Em Limoeiro do Norte
um homem se chama
Dom Manuel Edmilson

(estraga-prazeres).


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010


BAR À VISTA OU COM VISTA PARA O BAR


Meus livros: guru inseguro
agora que me dei conta de
um bar que me dá na vista
e desponta. Vingam pálbebras

de insônia e a barulheira
dos bêbados que equilibram
as doses mais adversas
e os diversos enfisemas

(cadavéricos enigmas).


Na calle Padre João Álvares
a Fonte da Juventude
perdura no bar defronte ao
espelho que se expande.

domingo, 5 de dezembro de 2010


RESERVE A AREIA


Reserve a areia,
as ondas, alugue as fases
da lua cheia de ser

minguante,
reserve-a antes que
os grãos acabem,

reserve dunas,
pranchas de surf, reserve
o schoppe do chão

que se abre.