sexta-feira, 30 de abril de 2010


PLEONASMO VICIOSO

Entrar de entrar para dentro,
de
adentrar para dentro e pronto

nunca será pernicioso vício,

nunca pleonasmo só vicioso:
antes será

o gozar de um gozo
de quem só entra ao

entrar pra dentro, de

quem só entra pra
dentro e ponto.

sábado, 24 de abril de 2010


SAPATOS
 

O sapateiro não invente
fazer-me botas perpétuas.
As sete léguas que enfrento
não são vãs vias de regra
 

que eu subo em degraus de calos
sem me queixar da escalada.
São sete léguas de piche
e solas sedimentadas.

quarta-feira, 14 de abril de 2010


DIZ QUE MORRI

Diz que morri e estou na cruz,
que efeminei e vou parir, que
emputeci ao pôr-do-sol, diz
que
o formol me esfez, desfez

ao invés e em vez
de agir em prol deste
fiel viés: que vês?


sábado, 3 de abril de 2010


AMOR FATI
Trancada em meus aposentos
divulgo o vento e simulo
a independência da pátria.

Com o fêmur dos intuitos
(outrora do ofício os ossos) flauteei
como a voz de um povo

sem pão-de-ló que bastasse.
Com o fêmur dos princípios
(outrora giz e fermento)

assei um bolo que o tempo
tornou ázimo, mistério
de um forno moral: inferno.

O fêmur dos meus humores,
julguei ser moto-perpétuo
mas a estação das flores

(estação dos frutos secos)
encontrou-me e os seus freios
apagaram-me os archotes

que ardiam-me, seus eixos
sempre vivos e funéreos
como a sorte dos canteiros.