domingo, 22 de fevereiro de 2009

ALICE E MACABÉA

O fóssil da quintessência
roído por reis de Roma;
o osso que não se chupa
deriva na identidade

perdida em qualquer lacuna
impenetrável, e é tarde
.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

EMPRESA

As maiores proezas
nos menores escrúpulos:

força que a vontade
não situa;

pulso de espantalho
sem caráter;

voo de pandorga
sem cultura.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

JEAN NARCISO BISPO MOURA - O meu mais novo livro de cabeceira é o Excursão Incógnita, de Jean Narciso, publicação da All Print Editora ocorrida no distante 2008. Jean foi claro comigo: “Não quero visitar os sebos de Guarulhos e encontrar este exemplar em um deles”. Com a sua preocupação infundada, Narciso foi claro como não costuma ser em seus poemas, pois clareza em poesia é ausência de poiesis e de poeta, e eu odiaria entender Excursão Incógnita. Mamãe também não entendeu a metalíngua de Jean. Agradeci ao bom Deus pela ignorância em minha laia.

Jean faz poesia assumindo a inflação da linguagem e a impossibilidade da escritura (Derrida); introduz o sonho abolido e violentado dentro de sua poética outrora carregada de esperança; demonstra que o tempo, mesmo encerrado no calendário e na ampulheta, jamais se subjuga. Jean e seus poemas são vários corpos ocupando um mesmo espaço, almas penadas errando em nossos instintos, saga de carapuças, violência nunca gratuita, variedade de vozes e monólogos.

Não me esqueço de suas palavras quando do lançamento de “A Lupa e a Sensibilidade” (2003): “O olhar investigativo sobre o ser humano dentro de sua esfera psicológica e social é um atrevimento que me impus sem mirar limites, atravessando pelas noites o silêncio que guardava, intrinsecamente, a grande celeuma. O conflito com o mundo me trouxe um grande pesar, porém me levou a acreditar na universalidade dos meus sentimentos, e permitiu que meus textos pudessem ser refletidos por muitos”. Em Excursão Incógnita, essa possibilidade de reflexão, de dialogismo e mesmo a de universalidade dos sentimentos estão em xeque: como refletir quando o imperativo do absurdo e os augúrios da pós-língua se inauguram em nossas vidas de forma definitiva? Como cantar poesia enquanto o eu - lírico apodrece para dar lugar ao poeta distorcido?

Poesia não é mensagem. Não é informação. Não se deixa contextualizar. Jean sabe que é por pensar assim que eu não quero meter seus poemas em uma compreensão alhures, em uma camisa de força qualquer, em um sentido literal, figurado, vacante ou pré-fabricado; sabe que também não quero torná-los palatáveis aos da minha cepa (quanto menos clubinhos, melhor). O que eu quero mesmo é superar a Poesia. Eu quero superar os ismos nos poemas, quero superar as sugestões, os conceitos, as menções, as dedicatórias, as noites de autógrafos, as ressonâncias, os panos para manga, os intertextos, os interstícios, a psicanálise, a filososofia, as tripas, os tropos, a forma e o conteúdo.

Quero superar a necessidade de poesia, enfim. Poesia é dispensável tanto quanto autores e leitores de poesia. Mas isso os otimistas de plantão não dirão (eles que dizem e entendem de quase tudo). A ditadura do otimismo não é feita de excursões e incursões incognoscíveis. Em compensação, cada página de Excursão Incógnita roga ao leitor: “Feche-me, feche-me”, pois é preciso fechar o livro, não sem antes abrir-se para os decaminhos da poética de / em Jean Narciso.

www.anedotabulgara.blogspot.com
www.poetajean.zip.net

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


ALMA DE ESTRONDO DE TORPEDO


Índio munido de ser índio
Perde a flecha e mata o cavalo
Toma a sede e come o suplício

Índio altamente combustível
Cisco pra não dizer olho
Asco pra não dizer medo

Alma de Estrondo de
Torpedo
CENTRO

Te esquece, pois, do médico legista!

Cegueira maior é uma alma transparente,
é um espírito deficiente físico! Seu pior
inimigo é este ecumenismo laico de um
Estado sem cara nem carisma!

Meu pai frequenta um puta centro espírita
melhor que qualquer plano de saúde! É
dança, é mesa branca, é atitude! Você se
desapega e reencontra

aquilo o que era vivo e agora é resto!
Portanto aceita a oferta, abaixa a crista,
que a cisma de morrer, meu bem, não
presta!

domingo, 1 de fevereiro de 2009


GALICISMO

Enrolo a língua trigueira
no Ministério da Areia.
Apanho As Flores do Mal

e otimizo o luau.