sexta-feira, 24 de outubro de 2008

AS ESCOLAS DE LATA

Eu lido com capatazes
em sempiterno recreio; com
comas interrompidos e logo
os retomo; com professores
de amianto e sobremesa de
perseverança.

Sou filiado ao Clube dos
Heterônimos Órfãos; sou meio-termo,
sou todo ouvidos, sou filho do esgar
e da ponderação, réu no tribunal de
pequenos coices. Meu coração é
uma bússola embriagada.

Fundo cooperativas, conto
poucas e boas, leio textos
apócrifos, perco as calças no
ludo; eu lido com conteúdos
depauperados, bojudos, líqüidos,
abruptos e há sempre um trunfo
a explodir no meu escárnio,
filigrana de granada a
espedaçar-me.

Mas jogo runas, mas
rogo pragas, eriço bico
de seio, amolo facas,
tesouras..

E planto sarro na lavoura
inimiga (o plantar e o colher
não são rotina); e repudio a
fumaça da esquadrilha (eu
conheço da asa

até a turbina).

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

TENEBROSO BLUES
Lastro de
bem-estar e repasto;
loiras e lenitivos
no bolso.

Tenebroso
bluesque agora executo,

orquestra de mundos
em meu subsolo.
OLÉ

Este calhau: o goleiro franga
ou fisga uma ilusão de pernas mortas?
Meu calcanhar poderá um dia
desfalcar a projeção do triunfo?

Terei tempo para pedicuros
ou permanecerei em potencial chute
neste pretexto de driblar o mundo
calçando cacos e cócegas?

Serão meus pés, pés pelas mãos
ou meras extensões de um gol
às cegas? Serão pedais estas
pelotas obscenas? São acessórios
de uma oval apoteose?
BOUILLON DE POULE
O homúnculo engole
um caldo knorr e cônjuge
enquanto perambulo
de ceroulas

o entorno de um trapézio
em horário nobre.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

POEMA – NOÇÃO DE CUME E TAPUME
'Sou poeta
quando a poesia fechas as portas
como quem abre e escancara'
O autor determinado vai de retro
quando serve a majestade do momento:
um patrocínio, um sotaque, um boteco;
um caduco, um critério, um movimento.

E sem jeito vai negando fogo,
perde a verve, assume compromisso,
chafurda em seu pseudomeretrício,
começa a escrever seu manifesto

(que muito mais parece um testamento).

Talvez haja bem pouco a ser escrito
e essa descoberta não é de hoje
nem é a tentação de ser conciso
o que nos faz rezar a mesma prece

como se revestíssemos de próteses
nossas predileções e expectativas
(e essa descoberta não é de hoje).
Eu quero minha poesia desprovida:

de nexo, valor, antecedente,
de acrílico, de vidro, de ornamento,
de métrica, de pátria, de talento,
de auxílio, de estilo e assim de mim.

Eu quero minha poesia deletéria!
Lá esteja meu suor e minha veia!
Se todas nascessem mortas como ela…
Se todas se entrelaçassem e houvesse
um elo…

Querer não é poder nesta ciência,
vanguarda que te quero retaguarda!
Datiloscrevo e imprimo na vida
antes que o prelo e o tipo me
concebam.



Mapa cultural Paulista 2003 / 2004

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

HEROÍSMO

1 - Um típico caso de heroísmo deslocado. Não lhe pediam comparsas, mas ele assumia integralmente uma culpa que, de fato, só a ele pertencia. Acrescentava que suas condições de trabalho bem como o relacionamento com superiores e inferiores, se haviam, não competiam para o seu ânimo insurgente. Não mencionava os motivos da insurgência, mas como ninguém os exigia, limitava-se a, educadamente, informar que seus problemas eram outros quinhentos, particularíssimos, diziam respeito unicamente a si e aos seus, que só não adentram a história por inexistirem. Falava sozinho, pois. E mentia feio.

2 - Onde se escondera o operário cônscio de seus direitos e cativo de sua luta? Contava carneiros e enumerava os cadáveres que vira surgir ao longo de tanta jornada. Ocupado em tanger o sono para seu interior (um eu profundo em tantos outros, todos tomados por cancros e espíritos zombeteiros), manejava uma calculadora ilustrada, mais um instrumento a lhe conferir o estigma que se alastrava e lhe ofendia as mãos enluvadas, os olhos protegidos, os ouvidos tapados e os pés calçados nas botas, cujos bicos ferrosos impediam que bigornas ou lingotes proporcionassem uma dor que talvez o livrasse da mencionada pasmaceira, mais descrita que mencionada, mal formulada talvez.

3 - Mas quem nos diz que a pasmaceira nos livra do horror (o nosso horror), que o nosso humor conformado é sinônimo de conforto ou espécie de comodidade? Não sabemos a resposta mas conhecemos destes sonhos bestas que, se não são de consumo, alcunhemos “sonhos de extravasamento”, que do nome científico pouco se sabe nem temos tempo de cuidar. Nosso herói, claro está, queria inserir-se no contexto de uma quadrilha, destas descritas por Drummond, que as metidas no folclore lhe faziam de idiota e as máfias escandalosas, se ele nem especulava, a ele não convinha. Mesmo assim e para tanto, remendara uma calça jeans que nem pedia reparos, estragos no joelho e um coração na bunda a denunciar certo fogo no rabo que a metáfora atiça e a opção sexual desautoriza.

5 - Seu grande problema era um e era uno. Queria ser J. Pinto Fernandes tanto quanto este narrador confundido com o autor queria ser Saramago (ao menos um seu heterónimo de quem nem temos notícia). E para meter-se a J.Pinto faltavam muitos degraus (em verdade, faltava visualizar o primeiro degrau). Esta operação é delicada e estes são os bastidores do heroísmo, que a todo herói falta uma escada ou vários lances de (a todo herói falta uma cova), uma lição profunda emprestando a esta insignificância o elemento que, se inserido em uma fábula, denominaríamos “Moral da Esbórnia”.
A LAJOTA

1 - Entro movido pela sensação de vai-quem-pode. Poderia permanecer horas a fio do lado de fora, meditando simplesmente ou refletindo sobre a inércia, ter pernas é mesmo uma benção? Para quê as quero? Ter pernas, quando muito, não passa de um privilégio. Penso nos milhões de aleijados e, solidário, não prossigo. Retiro da valise um tecido branco, acocoro-me e esfrego-o no chão, obedecendo a um ritual que ninguém me ensinou (o uso consagra o meu pedantismo).

2 - Mal o tecido absorve a imundície da primeira lajota (a mágica) e sou transportado para um pretérito indefinido que pode ser acolá, sempre ou amanhã. Se as trombetas calhassem de soar neste instante eu não ouviria, entretido que estou em não estar aqui, mas retrocedido (mapa astral tatuado nos cornos), trepado no bonde repleto.

3 - O bonde enguiça e eu pergunto quem ousa obstruir minha passagem (nós só estamos de passagem). “Reclamar é um direito que me assiste”, retruco (não obtempero) sem nunca ser interpelado. E não pondero e não admito: “Eu não nasci ontem, vocês pensam que eu nasci ontem?”. Ninguém responde, ninguém se importa e dou por encerrado (aborto espontâneo) o acesso de faniquito (ui ui ui). Lotado, o bonde (malgrado os usos da época e a escassez de assentos reservados, nenhum para ser exato) me deixa na porta de casa. Restando girar a chave, sou acometido pelo desejo de não entrar (o uso consagra o meu cagaço). Resisto.

4 - Retomo a limpeza da lajota (a mera) que em verdade não carecia de limpeza, limpeza que, convenhamos, não foi interrompida (claro está que sequer foi iniciada, se rito). Contudo, o tecido outrora branco está encardido.

5 - Servirá de coador ou presságio.
SOSLAIO 2006

O crivo de suas curvas
que amo de soslaio por
decoro.

Meus dentes
sincronizados.

A disfunção erétil
dos caninos

e a eternidade engrena
em queda livre.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O chão é acessório, é opcional. O ábaco é a descalculia. Castelos me trespassam positivamente. Faz de conta que este crânio é a anatomia de uma lâmpada maravilhosa; desejo que em vez de um gênio, a aparição revele uma fantasia a mais, além: o sogrunho de uma sueca, os elementos de uma mulata, uma calçola (calculem!) com ares de cabaço e améns; desejarei jejuns, fomes incomuns e abracadabras que anunciem o fim das emancipações. Assim componho o chão (opcional e não): montado em uma pluma petrolífera (por vossos olhos volito). Tudo o que escrevo é protótipo de rés-do-chão (acessório ou nem) e combustível. É o alicerce do meu submundo. Compreendo-o para negar-me: mil vezes
JAZZ DAS CARNIFICINAS

Luel, apaixonado,
casou-se com a forca,
gerou um ser humano
e retomou a fossa;

já nosso Subumano
simplificou a coisa:
juntou panos com a lua
e hoje: mais uma boda.

Luel & Subumano:
tango dos foragidos
âmago das algemas
dogmas e Sodoma.

Luel & Subumano:
jazz das carnificinas
postas de bagre e ogro
trânsfugas sem saída.
REQUINTE

O mel exumado
das uvas imoladas
no estímulo ao
bom gosto
rarefeito.

Te besunto de
ambrosia duvidosa;
grudo as penas e os
andrajos em sua
bossa.

domingo, 5 de outubro de 2008

EMENDA 006

A flor que que no cheirar exala esporro
escapa de florir jardins distintos.
A flor que no cheirar exala instintos
se murcha vicejada de socorro.

Socorro médico, injetam glicose
no mais subterrâneo das minhas veias,
nenhuma das melhores santas ceias
escapam de um bebum fazendo pose

no porre, de católico apostólico
florindo a tradição de liberdade
e o ritual orgíaco é litúrgico

se depender apenas da vontade
do inexistente ou fútil senso cívico
do instinto: distintivo da verdade.
SONETO E MAIÊUTICA

O natimorto espírito de luta:
se pressuposto, dele o que se espera?
A vitória utópica que gera
o arrependimento que recruta?

E o que fazer com todas as mentiras
se revelada for toda a Verdade:
Jogar no lixo, reciclar metade
e se há uma terça parte? Onde atiras?

Responderei toda e qualquer pergunta
c´o o mesmo ponto interrogativo
maior que a própria dúvida (afronta).

No reino inanimado e intempestivo
vegeto sem saber resposta pronta
sendo ou não sendo questionário vivo.

SONETO E TEATRO DA AUSÊNCIA

Seu medo é ser alguém que não se ama:
o oposto da auto-estima, o down, o páthos,
o extremo da carência, o só e os atos
que a solidão impinge e amalgama

em bastidores faltos de ribalta.
Monólogo que entranha e te acumula,
Teatro da Ausência e que te anula
perante a sombra e o público que falta!

Interpretar a morte será isso:
o chão que se abre, o ser que degenera
mas será muito mais: viver omisso

paramentando um cadáver de cera!
A defunção de um diretor postiço
e a carapuça de uma nova era!
SEMENTE E ARREMEDO DE EMENDA

Eu prefiro crismar o meu desdito
e não te desmentir: ótica e prisma.
O meu ponto de vista sem carisma
é dilúvio que pinga, é o Benedito!

Eu prefiro crismar o meu segredo
na ignição do seu ânimo infindo,
escandindo o esforço vais tingindo
de rubro este cenário e este enredo.

Eu prefiro calar o meu engenho
que a língua, esta pobre predadora
já sabe da peçonha que o meu cenho

exprime em pio, mutismo que aflora
de poro a poro a irromper no empenho
da comunicação que se penhora.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

OS MOCHILEIROS

Amar e somar risadas
em Paranapiacuba.
Que tanta graça, manguaça
e onde caço mazurcas?

Matutos dançam catira
ou falam de arquitetura?
A lama é medicinal
ou cheia de sanguessugas?

Será entre os anglicanos
que expiarei minhas culpas?
Permitem-nos bacanais?
Imputar-nos-ão calúnias?


Amar barracões, caboclos,
baganas e o Kama Sutra
pois quem não tem Glastonbury
acampa entre bons calungas.