segunda-feira, 30 de junho de 2008

TEMPO

Cronometrar o tempo,
sodomizar o cronômetro
com centímetros e quilômetros
da mais pura altivez.

“Agora é a minha vez”,
diz o cronômetro e você
responde: “Te enganei” e
corre e corre e corre
contra o tempo.

Domesticar o tempo
é improvisar coleira com
todas as suas pulseiras e
todos os seus ponteiros.

Domesticar o tempo
é apelidá-lo: bichano
e entupi-lo de leite. Seu
leite é o satélite

que goza e prevê
do tempo o seu destino,
o seu tempo: feito de
esporro, de profecia,
de pensamento…

sexta-feira, 27 de junho de 2008

AMÉLIA É QUE ERA

E um dia
deletá-la do meu leito
sem desculpas
sem pretextos

só o condão da
atitude e ponto

e um dia dizer: "seu
tempo finou" e entupir-me
de gosto ao vê-la
esmaecer, sua

cauda entre pernas
e Chronos

terça-feira, 24 de junho de 2008

A CASA TOMADA

Promessa: se eu vingasse
serviria de borracheiro.
Mana queria ser pôster
de oficina mecânica.

Papai era verdureiro e
mamãe, que era bufarinheira,
não cederia à luxúria só
para se dar ao luxo.

Bichos-papões fatalmente
fomentaram nossa morada
pouco depois da orfandade.

Misteriosos e milagreiros,
ainda evitamos reentrâncias
em nosso próprio cativeiro.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

OBJETOS TRANSCENDENTES - Sublinhar palavras, circulá-las, flechá-las, promover a lambança no campo do texto e no corpo do livro. Sou todo fungos e todo o enguiço das páginas éditas e infinitas. Vinte e um séculos de corrosão e ainda tenho a vida toda pela frente, tenho um antes e um depois garantidos para aquém e para além dos calendários, além e aquém da contagem do tempo. Sublinho neologismos, aceito, careço e esmolo a umidade inadvertida, circulo ou respaldo intenções com aspas e interjeições novíssimas. Tal período requer parêntesis, que eu providencio com ovos e pupas; um verso reclama vírgula, fora o amálgama de frases e orações mal resolvidas. Tudo é amorfo, tudo é encaixe, tudo é sintaxe (abomino-a). Tudo é representação (Goffman), tudo é jogo (Huizinga), tudo é ginga, enredo do crioulo doido, eu sou o crioulo doido das caatingas, dos sebos, dos encalhes, das coleções particulares, eu sou a partícula, o caráter que faltava, os caracteres e os grafemas e os arabescos e os hieróglifos desconhecidos ou sobejamente reconhecido pelos restauradores de raridades e catadores de lixo. Outrora invisível e subliminar, agora sou uma verdadeira forma de vida, agora sou a razão de ser da página em branco. Tudo é exceso, tudo é castiço, tudo é caótico, obra aberta (Eco) e embucetada, rebuceteio de verbos e larvas, volumes escancarados, embotados e embostados pelo uso ou desuso. 

segunda-feira, 16 de junho de 2008

HINO DE SÉSAMO

Fecha-te, Sésamo
e rechaça, ó Sésamo,
as muletas do
intertexto.

Ouça o teu sexo,
hasteado cinismo
em memória do
intelecto.

Beba este hino
senil e paliativo. Depois
despeje-o (um só jorro!)
no penico.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

CIORANUETHOS

My name is Cioranuethos.
I am poet and puto, university puto. 
I have many ideas, but I haven´t got metas.
I love poetry, but she doesn´t love me
I am polite, but education isn´t
The solution.

My heart is a heart of student,
Bad student.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

1 - Vivi em uma Grande Taba. Em 2000, desloquei-me para uma oca menor. Em 2001, retornava à Grande Taba, perdido para os meus e para o mundo. Antes, delírios com a descoberta do cauim em terra de ancestrais. Após e sempre, obrigações sociais, deveres cívicos, juramentos fingidos, labuta e rebotalho, que são palavras distintas querendo significar o mesmo martírio quotidiano mais conhecido como “trabalho”, vocábulo cuja etimologia não desconhecemos. Quem lê estas poucas linhas percebe que estou sob efeito de “Iracema” ou qualquer indianismo equivalente, conquanto a crítica especializada ou chauvinista não consinta equivalências ou comparações. Em verdade, queria um prólogo suficientemente atraente para ensejar um raciocínio inútil, sim, mas não de todo descartável.

2 - Que minhas razões prescindem de razão ninguém duvida. Que a humanidade carece de motivos para ser, estar e permanecer eu não duvido. As dúvidas foram dissipadas a priori. A Idade da Razão é uma utopia àqueles que esqueceram de vestir a mortalha e seguem “vagarosos, de mãos pensas”, cultivando “a última flor do Lácio”, “inculta e bela” e murcha como alguns destes modernos criadouros de dengue. Vivi em uma grande lenda, fartura e desperdício de mundos e fascínios. Meu sangue foi genuinamente antípoda. "Que bandeiras desfraldei?", você não me pergunta. "Os panos menstruais e as fraldas descartáveis", eu não te respondo.

3 - Queria engarrafar o Sopro, torná-lo funcional, metê-lo em usinas eólicas e transformá-lo em energia hercúlea. Queria trazê-lo até este parágrafo, queria gerá-lo no primeiro e desenvolvê-lo no segundo. O verso não veio mas ainda persevero, verás que filho teu nem teme quem te adora, gigante pela própria inexistência, ausência intrínseca, existência extrínseca se assim Deus permite. Madeira, da pátria à economia, da cara à coroa, do berço ao precipício.

4 - Vivi em uma grande farra. Vez em quando, articulava discursos otimistas. “Otimizava” as palavras que, encantadas, submergiam às placas tectônicas e emergiam às torres dos edifícios. A culpa era do meu pensamento negativo, do meu discurso pessimista. Inventei o terremoto na avenida Paulista, o Tsunami na represa de Mairiporã. Os sacis discordavam e reivindicavam a autoria dos fenômenos naturais.

5 - Os otimistas empalam os bois de piranhas, assim como certas tribos africanas costumam queimar as bruxas que, em verdade, não passam de velhas senhoras, eleitas como feiticeiras e exterminadas em praça pública pela turba ansiosa por colher os frutos da esperança e da superstição; ser apenas um rapaz latino-americano é equilibrar-se em um discurso repleto de justificativas queimadas como etapas da (in) justiça. E não há nada pior do que justificar a vida, a conduta. Não há nada pior do que justificar a desrazão.