domingo, 18 de setembro de 2016


OS BOLÍVOROS

Dinamitar os semblantes ou
antes esquartejá-los (palavras
frases, períodos) quiçá a
cereja do bolo

consista em pedaços vivos
daquilo que não será
se íntegro.

sábado, 10 de setembro de 2016


ROAD MOVIE 

Dever de ganhar o mundo
perdendo o berço e o absinto
que das goteiras poreja:

o diapasão da reforma

agrária, on the road
na avara estrada de terra
(sweet home).

sexta-feira, 9 de setembro de 2016


A CASA COMO A UM SOMENOS

A casa como a um somenos: sê 
boca a menos para as futuras gerações
alimentarem com os gessos das sagas

constatadas ou não no interior
das edificações

se o tempo não surrupia dos fatos as 
falsas versões e os falsos feitos (sê
boca a menos).

sábado, 13 de agosto de 2016


AFà

Este pássaro fugidio
ludibria-me encenando tornar-se
eterno em sua gaiola de entre 
chão e firmamento. 

Tu fugirás de mim
(glorioso, arredio) porque 
de ti sou arremedo

fotografado em horizontal afã
de nunca querer fugir do aqui 
nem do que, em mim, é medo.

______________________

Jean Narciso Bispo Moura

segunda-feira, 1 de agosto de 2016


A SALA DE ESTAR SE UM BODE

Eu era um bode na sala. E ainda,
em muitas salas, persevero como bode:
o doudo bode da sala; a atemporal

lenda do bode; o vergastado ser 
é um bode em uma sala.

quarta-feira, 27 de julho de 2016


CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS

A bordo de um camburão até
o centro da terra onde corpos
não reagem (onde crimes
não compensam);

de um auto de resistência
até a vala mais hodierna onde
corpos se debatem (pois que
a morte não lhes chega);  

lacônica, a rês suspeitosa, 
enlanguescida três eras,
acordou, viu-se cardápio
de um jogo de sete erros. 

Fuzilada, fossilizada,
a carne negra não resta:
insemina, redesenha-se (não
há bala que a enrijeça).

segunda-feira, 25 de julho de 2016


EU SOU UM TOMATE

Acudirão o tomate sem prosódia
ou abandonam à deriva poços sem
fundo? No fundo do poço tomates
resistem aos enigmas

ou alimentam buracos negros
(monstros sem estômago)?


NOTÍCIAS DO AINDA

Algo que era seu morre (porque seu)
e nem nome para constar na lápide,
sequer lápide ou sombra de restos

mortais, sequer funerais ou
espargir de cinzas (um morto obscuro
não míngua

se faz do além um ainda).

quarta-feira, 13 de julho de 2016


ONZE HORAS

Amam, odeiam, arremedam
manchados de indumentárias que,
cedo ou tarde, despencam

e corpos santos de antanho
(anêmonas) revelam-se iguais então:
tamanho, espécie e beleza

familiares ou não.

terça-feira, 12 de julho de 2016


POEMA À PARNASIANA

Ano e meio e mais (ou menos)
até que um poema massa se decida, até
que o poema, asa de ourivesaria,

agradeça aos céus por ser 
parnasiana enfermaria

sábado, 28 de maio de 2016


AMORFO PERFEITO

Elementos de um futuro distópico,
ancorados nos mares da utopia, 
transitam, entre nós, em julgados, 

tramitam em segredo 
de justiça.

segunda-feira, 23 de maio de 2016


UM BODE NA SALA DE ESTAR

Como evitar chorume?
Que as paredes ganhem teias? Que
aqui se instale um curtume e

um bode na sala de estar em
nome do amor maior?

quarta-feira, 18 de maio de 2016


CERTO PRECEITUÁRIO À DOR DE CORNO

Certo preceituário à dor de corno: que
seja dor, que haja um corno; que seja
um dom, e que haja um convescote de 
                                                     
touros honrando o ser infiel.

terça-feira, 17 de maio de 2016


TUDO COM TUDO (DAS SUBSUNÇÕES)  

Tudo com tudo num emaranhado total,
arbitrário, geleia do general de pijama,
dos sem-toga e semi-togados, sumir e
subsumir no mapa dos ordinários (credo,

raça, valor monetário), diálogo constante
entre o não-ser e o ser vários.

domingo, 8 de maio de 2016


Ó DEUS DO NEXO CAUSAL

Ó Deus do Nexo Causal,
Deixa-me responder sem Gênero, Número e grau,
Deixa-me responder que é o Tambor,
Que é o Berimbau,

Que é o Amor ou o Elã Vital,
Ó Deus do Nexo Causal.

terça-feira, 3 de maio de 2016


EU QUIS ESTES VELHOS LIVROS

Eu quis estes livros velhos
que restam aqui, impávidos;
que aqui residem, combalidos;
quis tê-los, lidos ou não

e tento mantê-los vivos:
aves, naves, gaviões
colhidos e recolhidos,

abertos como bíblias nas paróquias ou 
hermeticamente fachadas (a letra morta 
da lei, verbetes de enciclopédia). 

Eu quis ser monge copista,
plagiar o plágio e a afasia,
autorizar-me, destituir-me,
renunciar-me, render odes
aos downloads, piratear
calhamaços.

Eu quis estes livros ínvios 
(mortalhas tecidas tensas) 
e quis, até mesmos quis, 
et cetara, as reticências...

domingo, 1 de maio de 2016


SOBERBO SANGUE CORRENTE

São tempos de arco e flecha,
pintar-se de guerra rara, soberbo 
sangue corrente nas

veias abertas, sacras. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016


OS AUTOS DO PROCESSO

Só me declaro nos autos,
meu corpo entregue ao degredo
nas cercanias do fórum
onde protesto em segredo.

Eu só me expresso nos autos,
em petições, requerimentos,
moções honestas mantidas
em cativeiros modestos

e repudio, e manifesto um

solene descontentamento com
o andamento do processo que,
em verdade, por completo,
desconheço. 


SERMÃO DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS

No embrião diviso o vulto,
o sumidouro do fruto
no semear a existência 
(a quintessência das 
                           cinzas

edipianas, antiedípicas,
tanto faz). 

domingo, 3 de abril de 2016


VERTEBRAL

Há que se vertebrar
os botões de foda-se, dotá-los
de efeito intempestivo,

não mais que de repente
o contrapé sobre mina
terrestre, 

vertebrado vulcão com
seus graus centigrados.

sexta-feira, 25 de março de 2016


ESPÓLIOS DE GUERRA

Neste ínterim
amealhei espólios de guerra:
poemas canhestros 

de uma vida inteira. 

quarta-feira, 23 de março de 2016


REVOGAM-SE AS DISPOSIÇÕES EM CONTRÁRIO

Doravante
a atividade-fim de uma relação
será ouro sobre azul
gozo sobre gozo

até a apoteose (necrose
do outro). 

sábado, 27 de fevereiro de 2016


AS QUATRO PAREDES

Quatro paredes não ficam
entre quatro paredes: do lado
de fora, sem pudor, aflora
um interior

de misérias e discórdias (se
as exploro? exploro-as).

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016


SOCORRE MUNDIVIDÊNCIAS

Socorre mundividências
sem sopesar o bruto, o líquido,
sem evidenciar sentidos
               
que ponham a salvo 
nosso chão.

Mundividências sem divãs,
sem audiências, sem ecrãs,
socorre hoje, que o 
                         amanhã

é átimo tímido. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015


DO LUTO TÁCTIL 

na homicídios
meu filho em chamas
eu tenho a foto
         os fotogramas

eu sinto as chamas
fogo selvagem
tenho as 
            imagens

frame
         por 
             frame.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015


VOZ DE PRISÃO

preso ao poema (patético papiro) à 
goma arábica (fleuma e enfermaria)
pelo que selam (estigma, interregno):
gaia vacância de um sentido ético                           

eu exegeta do rejeito antropotécnico
subscrevo-me niilismo & associados  
subscrevo-me sangrando 
                                  magnetismos

declarando-me culpado
& tendo dito 

sábado, 31 de outubro de 2015


k k k k k k k k k

não sabe se ri, se revira
não sabe se se revira, não
sabe se revirar, não 
                            revira

se reverá, a olho nu, o nu
de um riso adúltero, haverá
riso após o último
                            suspiro?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015


ALPINISMO SOCIAL

Como responderei-lhes quando, 

um  dia, perguntardes se praia 
ou se montanha? 

Preferirei a infâmia, não responderei 


bulhufas às questões 

contemporâneas (marciais,
marcianas).

À boca pequena digo que 
desfruto os infinitos dos 
engôdos, da patranha.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015


NÃO VALHO UM COELHO VELHO

"Não valho um coelho velho", 
disse-me um velho e enfermo
profanador de coelhos, "mas
gosto de vigiá-los

quando afoitos em recreios
orgiásticos. Conselho? Adote 
coelhos velhos. Não

valho um velho coelho.", 
me disse um velho e alheio
voyeur: voyeur de coelho.

terça-feira, 6 de outubro de 2015


PIRRO 

Álcoois, tribunal cardinalício, 
súbito tripanossomatídeo faz-me 
festa na floresta intestinal

trespassada de boatos 
e vitórias de Pirro, venham
todos e sejam bem-vindos,

vem que vem, filha,
vem que vem, filho,
vem que vem. 
  

sexta-feira, 25 de setembro de 2015


MEU ESQUELETO RUMBEIRO

Devolva-me a costela, meu 
esqueleto rumbeiro, meu fêmur 
banhado a ouro, os meus
rupestres requebros;

uns poucos ossos dispersos
na língua de uns tantos perros
vira-latas ou domésticos, meu 

crânio de australopiteco.

terça-feira, 8 de setembro de 2015


DOIS DOS MEUS

Vi dois dos meus tombarem
feio, não como mártires, mas 
como é dado aos 
marmiteiros.

Dois dos meus, e ninguém
reparar na credulidade que 
fulmina (portadores que eram
de pequenos recatos

e mínimas chacinas). Dois 
dos meus: apresuntados,
renegando plasmas e tiros
de misericórdia,

seus amores embargados
pelos bons costumes, dormem
agora o sono da justa poeira
cósmica (única pátria 
                         educadora).
     

terça-feira, 21 de julho de 2015


OBJETO A

Eu pego amizade fácil
como se ossos do ofício, e
ao sabor fabril do ímago

fabrico amigos,
fabrico.

sexta-feira, 17 de julho de 2015


EXIT 

Nada mais infecundo, 
nada mais desditoso: o 
encouraçado iracundo  
(ser exitoso):

hégiras, diásporas,

êxodos.

sábado, 11 de julho de 2015


UM REI QUANDO ESTÁ NU

Um rei, quando está nu,
ainda é rei? Depende de quem
fita a majestade? A roupa nova,
enfim, é novidade? Merece

um tiro de misericórdia
quem elogia reis em
novos trajes?

domingo, 5 de julho de 2015


TECENDO RELAÇÕES (COSMOGONIA)

Um zé bonitinho não
tece relações: precisará
sempre de uma 
                       amante

que grite impropérios
e o leve alhures; que 
o espere acordada
madrugadas

e incorpore giras 
se esparrame em
tendas
          que evoluam

e incendeie o cosmos
desprendendo o 
cabelo
         às gargalhadas.

quarta-feira, 1 de julho de 2015


VC QUER BRINCAR NA NEVE?

É tempo de afiar facas
(correr atrás dos moleiros)
para lanhar costas largas
com nosso instinto
açougueiro;

horário do vilipêndio

de corpos ainda 
onívoros; momento de
atocaiar-se

e esperar pelos vivos:
que venham em ondas, levas
de quatro ou cinco
                          fregueses

ou venha bojudo indivíduo
que se enrede em 
nosso freezer. 

segunda-feira, 29 de junho de 2015


EM SUPLANTANDO

Em suplantados, tudo dão:
o amor, a lua, o holerite;
uns onze contos de réis
e juras de dinamite;

convites para o infinito
e a finitude do alpiste se
em suplantados como

são (petizes sem
expertise).

sexta-feira, 26 de junho de 2015


GRANDE HOTEL AMNÉSIA (A CODIFICAÇÃO DOS SONHOS)

Sua mãe era um telefone verde
quebrado e sem teclas, imóvel
colhido do chão.

Meus pais, presentes, figurantes
sem desempenhos ou funções.

Já a senhora sentada à mesa,
uma senhora sentada à mesa
sem outra significação (mas 
confundi com sua mãe). 

              ***    

Nos bastidores,  
enclausurados, jovens 
que, ensimesmados, 
fornicavam.

                   ***                  

Você dividia a atenção (como 
a uma côdea de pão) entre seu 
passado e eu (em vão),

você se refugiava na inoperância 
e na resignação, fadada a desconhecer
toda sorte de imigrantes ilegais,
também albergados (lúbricos,

famigerados) em sua 
insuspeita mansão. 

sexta-feira, 19 de junho de 2015


A ASPICUELTA

Meu nome na praça: 
aspone, o comparsa de 
um outro apedeuta.

Meu nome na praça: o 
embargo econômico, o 
encômio ao sistema.

Meu nome na praça: o
ocluso hermeneuta
e o asfalto da rua
               
Aspicuelta.

quarta-feira, 17 de junho de 2015


O PIO DO OVO GORO

O ovo goro em
frigideira adjuvante
não é cordato 

com os apetites:
turva jantares, neles
se amplia, paira,
impregna 

moda um esquife.
Puro miasma de 
má ambrosia:

convoca as ânsias,
asfixias, e em vão 
emana

sua natureza
interrompida (um
ovo goro, piar 
não pia).

segunda-feira, 15 de junho de 2015


ANIMAL QUE LOGO SOU

Animal que logo sou,
que logo enluto,
logo enlatado,
                 entulho

elétrico, animal
que logo lúdico,
agônico, sujo,

animal que regurgito,
que logo súbito, formiga
incógnita, anta,
Quasímodo.

Animal explicitado
em ríctus, retretes,
logo inexisto (ser
que se atreve).


DOS TAMBORES DE ANGOLA

Os Tambores de Angola
se esgoelam. 

Os Tambores de Angola
deliberam.

Os Tambores de Angola?
Escaldados.

Os Tambores de Angola,
lado a lado.  

terça-feira, 9 de junho de 2015


O POEMA DAS CORREÇÕES 

Corrija-me se eu estiver errado,
se eu estiver blefando, se eu
estiver mentindo, se eu estiver
endereçando às paredes

minhas teorias conspiratórias;
corrija-me se faço de terceiros
bezerros de ouro, bodes
expiatórios,

corrija-me se agora falo
umas verdades que só enuncio
quando bêbado, que só
reverberam quando eu,

sombrio, ponho tudo 
a perder.

sexta-feira, 5 de junho de 2015


ANGU DE SCHOLAR

Livros errabundos na
mesa de centro. De quais
arrabaldes tais volumes
despenharam?

Em quais barafundas
fizeram-se livros? São
livros os livros que 
agora frequento?

São feitos de abortos
ou fetos ferinos? São
livros os lanhos que
abrigo em meu
                      peito?

Ilesos os sábios
que nunca renderam
louvores aos
                      livros.

domingo, 31 de maio de 2015


A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA (MISTER SANDMAN)

Tento acordar dos pesadelos.
Tento dormir, ter pesadelos, mas 
o placebo mais acerbo é uma 
piada de mau gosto 

que não faz dormir nem
se põe a despertar quem 
já não quer dormir ou 
o acordar 

em leitos paliativos (possíveis 
pasárgadas se não minto). 

                    *
O placebo mais acerbo é 
uma pirâmide autocrática 
que determina base 
e topo: 

se travesseiro de pedra, se 
do conversível o estofo 

(será administrado ao
corpo em óbito, como de 
hábito, novo placebo
luminoso).

terça-feira, 19 de maio de 2015


MEU PRETO

e se eu introduzisse um taxímetro em meu peito,
hein, meu preto? cobrasse pela mobilização dos
cinco ou seis sentidos, minha querida?

porque é um tal de aproximam se afastam
sem órgão regulador, encargos contratuais
e se nos tornássemos mais técnicos,
mais profissionais? 

porque nos chegam de supetão e 
sem convites, aos berros ou mímicas,
como aborígines, sem galardões que 

os justifiquem em nossas vidas e 
quando percebemos já não há risco de faca 
que forje linhas divisórias, fronteiras,
comarcas 

que graça há nisso, oh, 
minha clara?

sexta-feira, 15 de maio de 2015


SÍTIO ARQUEOLÓGICO

Lascar pedras
construir abrigos antinucleares 
com garrafas pet
e a sagacidade

de quem se 
adapta, opto pela ritalina
consumida à revelia
do imaginário em

teatrinhos teratológicos
(vulgar armário)

domingo, 3 de maio de 2015


SENADOR AMARAL

Um bolshoi desencontrado
sobre minhas hortaliças,
sobre mudas nos barrancos,
e morangos no deserto.

Um bolshoi beckttiano

esperando Godofredo
que não virá por ser negro
(desgraça pouca é bobagem),
que não virá por ser tarde

e o taxista, careiro.

quinta-feira, 23 de abril de 2015


TRATOR EMOCIONAL

Veio o choro livre
e o mal, pelas raízes,
foi deportado.

Cegaram os cisnes
que se estranharam
até o final: vida

de gado.

quarta-feira, 15 de abril de 2015


VIA DAS DÚVIDAS

A via sacra das dúvidas
primeiramente repugna,
antes de tudo constrange (o
osso e o ofício da dúvida

é constranger e é de súbito
eliminar a certeza que 
paira crua, absurda: ave
de veias abertas).

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015


E. N. E. M.

o escriba anônimo
escreve o nome e só
assina o nome e nem

e some sem
mais

caligrafia do óbvio,
caligrafia do ágrafo
escriba incógnito
                           
(cogito-o) 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014


ESTRANHO PEIXE QUIMERA (A CARPA MORRE EM SILÊNCIO)

A carpa morre em silêncio
(não foi assim com Venâncio,
a contragosto emboscado,
debatendo-se nas sendas).

A carpa morre em silêncio
(não foi assim com Vanessa
na cirurgia, às avessas,
sem ação de anestesias).

A carpa morre em silêncio
(o vernissage, em Guarulhos,
contava com moribundos
em seus últimos suspiros).

A carpa, se esperneasse
morreria é de vexame
e perderia-se, exangue,
deblaterando sem sursis.
   

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014


VAGO EVEREST

Vago Everest este,
mirá-lo é elevar-se
(o que nele se abre e 
a fé que o remove). 

Alpinismo a admiração
(o platonismo ao rés do
chão) no afã de nem
atingir o topo 
                (suponho)  

ao som de "Fly me to 
the moon" 

na voz de Sarah 
Vaughan (o Everest, 
desposo-o).


MÁQUINA DE HABITAR (APACHE)

O mais das vezes me faço apache
sem dinheiro para porsches sem
idade para a bocha a casa chulé para
azulejar com os esmeros de Gaudí

sem mesuras de examinar

se há lesmas na parede ou
se licores às visitas de quase nunca, se
as ceroulas estão à mostra

ou se os dentes, palitados

terça-feira, 25 de novembro de 2014


Então você se livra do resto de orgulho e dignidade que o envolviam e começa a se desculpar quer manter-se no posto seguir labutando que isso nunca mais irá acontecer não vai se repetir (e irá e como irá irará) que era só uma fase que têm razão em dizer que não era nada sim senhor concedo em admitir que era mesmo corpo mole consinto-o que muitos trabalham em piores condições e com as dores do parto mas sequer reclamam afinal você é um homem veja nossas profissionais mulheres e quão fortes com pencas de filhos pra criar e marido pra satisfazer e casa pra arrumar e você aí solteiro forte e rijo (pra não dizer gordo e cevado) reclamando de algo que você nem sabe explicar (o que é? onde dói? não dói?) você nem foi ao médico quem está doente vai ao médico cadê seu atestado? você nem se deu ao trabalho de comprar um atestado médico (e o que será de você sem atestados?) eu também já fui jovem mas no meu tempo não era bagunçado assim não chicote estralava hoje vim trabalhar doente e você aí esbanjando saúde vou te dizer uma coisa que aprendi nestes meus cinquenta anos de experiência: que a vida é dura só pra quem é mole meu filho você nem vem dar satisfações fica em casa coçando o saco querido veja o seu joão empregado do mês funcionário fodão condecorado e reconhecido pelos bons serviços prestados e você se achando dono do mundo e você se acha e você promete a si mesmo que de agora em diante será o melhor trabalhador do universo que vai recuperar o tempo perdido mas no dia seguinte não consegue sair de casa sair da cama acordar pra vida acordar pra cuspir Gregor trancado em seu quarto (já devidamente metamorfoseado) enquanto do lado de fora gritam ameaçam exigem-no são e íntegro.  

domingo, 23 de novembro de 2014


ESPLENDOROSO VASO SANITÁRIO

Boiam adiposos espólios
(fui eu quem os fiz!) e é assim
que penso: meteoros que um
ou dois incensos hão de

purificar, penso em quem tenha
rudimentos de taxidermia para, 
ora pois, imortalizar-me os
destroços (toroços) absortos

em vaso sanitário
esplendoroso.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014


AMAR É USAR LINGUAGEM DE CASERNA

Amar é usar linguagem de caserna,
da intimidade crua o anedotário
de vestiários, bares, serpentários
onde dilacerar do ser a fleuma;

é conspurcar de gozo os ademanes,
sujar de estrebaria os solilóquios,
rasgar declarações, castrar o móbil
que parasita almas tão ingênuas.

Forbidden doravante seja lema
do amor sem etiqueta ou suspensórios
(o amor é amar sem genuflexórios). 

O franco-atirador fez um poema
e o leu qual menestrel, contudo o óbvio
não se concretizou (o amor não é tema).

terça-feira, 7 de outubro de 2014


A CAVERNA 

O escuro também ocorre
como ato de currar; caverna a 
ser suplantada, contra a
qual não há recuo.

Também se exerce como falo,
como corpo cavernoso,
como recurso hediondo
o escuro.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

1.ª Reunião de Intercâmbio - coletivo Sáfaro e Vinicius Andrade


Helena, de Eurípedes


Vinícius Andrade
Mariana Waechter
Samuel Gambini
Luíz Falcão
Ronaldo Dimer
Leonardo França

Fonte: http://osafaro.blogspot.com.br/2014/06/1-reuniao-de-intercambio-coletivo.html


LEGÍTIMA DEFESA DA HONRA 

800 quilômetros num Ducato 
para unir o que homem separou
para separar o que o homem uniu,
lavar roupa suja em magro 

interregno (a anamnese é um
risco que não devemos); o 

ser informe, noite adentro,  
fora de questão ou contexto
requer das bodas um cerne,
um saneamento

mas chegamos aqui vencendo
oitocentos quilômetros para 
resgatar crescente e indefeso 

códice, dar colo a um eídolon 
(embalar vórtice 

lançada aos cantochões da própria 
sorte) que não deve e não pode 
(a anamnese é um abrir-se em 
óbices) amanhecer

segunda-feira, 2 de junho de 2014


ZOO

Seríamos eu e os meus cachorros:
da fauna a fidelidade, perfume de
banho e tosa

(por que do verso ou da prosa
se a vida é um abanar de rabo?).
     
Seríamos eu e os meus equinos
domados, torrões de açúcar, um
horizonte de haras (bastar-me-ia

o deserto? suas areias,
seus camelos?).
            
Seríamos eu e os meu aquários:
um peixe no espaço-tempo, a vida
um mar de ostras cujas pérolas
                                      sopeso

(seríamos eu e os meus cadáveres,
seríamos eu e os meus mancebos).

sábado, 10 de maio de 2014


THE SELFIE

Amigos de anos-luz
feitos às pressas, vultos
de outros comparsas (múmias
elencadas em icebergs:
agremiações suburbanas)
tomados de automóveis
(possantes que lamuriam),

descendo velhas ladeiras
em limitados rolimãs
passados de pai pra filho
(onde o álcool e a direção:
nossas sublevações),

velocistas hardcore
como sói acontecer.

sábado, 7 de dezembro de 2013


SONHO

sonho sem cara de sonho
sem áudio de sonho sem
banda larga de sonho

sem quórum para validá-lo
mas a não sonhar prefiro o
sonho


e o pesadelo de sonhá-lo


sábado, 30 de novembro de 2013


A ABIGAIL 

Não quero beagles:
quero hambúrgueres
e de lambujem o
amor de Abigail: cadela 

alhures quando no 
cio (meu próprio
umbigo é a Abigail). 

sábado, 2 de novembro de 2013


SONETO MANCO DO RISO NERVOSO & DO AMOR SEDENTÁRIO


Cigana, a minha efusividade
é burro que amarro nas encostas,
pletora de respostas empregadas
na construção de egos e chacotas;


é chato contraído nas masmorras
das conjuminações, dos sentimentos,
evento que, perdido em mil gomorras,
oscila-me entre lapsos e membros


que a memória decepa e o tempo arranca
com ganas de amputar o pensamento
urdido pela sífilis: coroa

de um nobre, de um novíssimo engenho:
a cáustica anedota para a cura
dos males cujo humor é só indumento.



segunda-feira, 21 de outubro de 2013


PARA SER TÃO TIPO ASSIM

eu e minha boca rotunda
minha fala de antanho
anos falando grego
rouxinóis da carochinha
artistas de ribanceira
meus neurônios coloridos
carcomidos pela aurora
da adolescência que,
ausente, acolhe a mim
no entrementes

de seu regaço ruidoso

eu repudio quem possa
manipular meios, fins
e driblar a mortandade
que me consome
e me escolhe

para ser tão
tipo assim

domingo, 29 de setembro de 2013


O SAPO MAIOR

Sapo-tanoeiro
narcotraficante
gritando o gol
impedido.

anfíbio pan-americano
entorpecido pelo céu de narguilé
fumaça lúdica

coaxa groselha à míngua
o madrugador

onipresente anfíbio
o sapo é tenor (voz
de barítono) o sapo

milagre e ídolo
dissecado, ressequido

o sapo maior.